Conta apresentada à Assembléia Provincial de Goiás pela construção da ponte sobre o Rio Claro, primeira grande obra de Jataí construída por José Manoel Vilella. Além do reembolso das despesas, conseguiu o direito de 10 anos de pedágio. A fatura é de 4 de dezembro de 1875.
   


 

JOSÉ  MANOEL  VILELLA

 

José Manoel Vilella (sentado) ao lado do filho de mesmo nome.

José Manoel Vilella – Filho legitimado de Francisco Joaquim Vilella com Floriana Borges da Silva. Nasceu na cidade mineira de Espírito Santo dos Coqueiros, Minas Gerais, em 18 de abril de 1815 (há quem afirma que esta data não é verdadeira). Veio para o Sudoeste de Goiás em companhia do pai com pouco mais de vinte anos de idade. Casado com Leocádia Perpétua da Silveira, tiveram nove filhos, de acordo com o seu inventário.

José Manoel Vilella pode ser considerado a expressão maior na fundação de Jataí. Os atos mais importantes, as decisões tidas como cruciais até, tudo vinha com o remate de ponderação e de segurança, nascidas de uma cabeça concebida aos grandes feitos. O patriarca José Manoel Vilella nunca descuidou de sua obra. Por isso, a pequena freguesia nascia lenta e pequenina, lá pelas bandas do encontro dos córregos Jataí com o do Sapo.

A Rua da Ponte (Jerônimo Silva) foi a primeira via a ser chama de rua. Por ali, as famílias construíam suas casinhas, obedecendo a um alinhamento em direção à cabeceira do Açude, a boa distância do Córrego do Sapo. Veio o Largo da Cadeia. Abriu-se a Rua do Comércio até o largo que seria chamado de Praça da Matriz. Esta constatação pode ser deduzida, observando-se as primeiras escrituras lavradas aqui a partir de 1872, no Cartório do 1º Ofício.

A Praça da Matriz foi o local escolhido pelos mais ricos. Era o endereço dos grandes fazendeiros, donos de casas suntuosas com arquitetura diferenciada. A Rua Direita - depois do Comércio - era mais ou menos desse jeito. Assim Jataí se fez ao longo dos anos.

Para montar aqui as células da máquina do Governo do Estado era preciso apoiar-se em alguém do lugar. Para essa honrosa tarefa foi eleita a competência de José Manoel Vilella. Esta observação pode ser confirmada num decreto assinado no longínquo oito de janeiro de 1852, na antiga Vila Boa, nomeando Vilella para um cargo na Segurança Pública, na Vila de Dores do Rio Verde, a quem pertencíamos.

Além dos problemas de Jataí, José Manoel Vilella atuava também em Rio Verde em trabalhos eleitorais - realizados com grande frequência naqueles tempos. Era participante ativo das chamadas Mesa Paroquial, por volta de 1860. As atribuições de um delegado de polícia não eram fáceis de serem cumpridas, em vista da falta de recursos. As ocorrências policiais no interior do Município eram impossíveis de averiguação pela grande incidência de índios bororos que assustavam os moradores com ameaças e mortes. Por tudo isso, sentia-se impotente, reclamava.

A falta de comunicação com a Capital era compensada com o envio de portadores, em lombo de animais, levando documentos e correspondências às autoridades que pouco ou nada faziam para atender o interior. Numa dessas vezes, José Manoel Vilella expôs as verdades: Sendo este lugar um sertão e extremo de três Províncias, como não pode deixar de todos os dias entrar e sair pessoas estranhas, e delas a maior parte foragidos por crimes cometidos em outros lugares; não pode a Polícia ter aquela vigilância necessária para tranquilidade e garantia pública. Estávamos em abril de 1870.

O trabalho desses pioneiros não se resumia em segurança. Em 1872, o Império, no Rio de Janeiro, queria saber o número de habitantes e para a contagem ser feita tinha que contar com voluntários, arriscando embrenhar-se pelo sertão em busca dos poucos moradores, distantes uns dos outros. No lombo dos animais, os grupos levavam suprimento alimentar e munição para defender-se de animais selvagens e dos índios. Alguns fazendeiros não os recebiam, por medo. O recenseamento foi feito. 81 famílias foram contatadas no Município.

Naquela época já existia um comércio até intenso com a cidade de Coxim, no Mato Grosso. A estrada que ligava Rio Verde àquele lugar, na realidade, era um caminho por onde passavam os carros de bois em busca de gêneros. Jataí estava na rota. O tempo passava. Jataí se desenvolvia.

Diante do crescimento natural da população e aumento gradativo de seu rebanho bovino, não restou alternativa ao pioneiro senão fazer uma ponte sobre o Rio Claro, desistindo da ajuda oficial pela dificuldade de conseguí-la. Apoiado pelo seu genro, Serafim José de Barros, José Carvalho Bastos, Francisco Ferreira Coelho e outros poucos colaboradores, José Manoel Vilella iniciou a construção da ponte. No segundo semestre de 1875, sua obra estava concluída.

Naqueles tempos difíceis, o Estado não possuía organização nem pessoal habilitado que pudesse deslocar-se para executar um empreendimento assim. Não havia estrutura nenhuma. Por isso, iniciativas como essa acabava sendo uma forma de colaboração ao Poder Público. Dois anos mais tarde a obra foi paga integralmente pelo Governo.

Ao assinar a procuração para esse recebimento, Vilella anotou em baixo do nome: Diretor e Tesoureiro da Construção da Ponte do Rio Claro.

José Manoel Vilella era um homem de pouca cultura, mas sabia das necessidades dos humanos: No dia 25 de setembro de 1874, Vilella registrou no cartório um contrato de trabalho com o mestre João José Leite ...para ensinar música aos alunos que julgar

necessário, sendo o instrumental a custa da  sociedade... por espaço de três anos, recebendo o salário de seiscentos mil réis anuais, em dois pagamentos...

Naquela época (1875), José Manoel Vilella era juiz distrital interino, lotado em Jataí. Para receber seu salário, foi preciso dar uma procuração a um importante e tradicional político goiano, João Fleury Campos Curado. Ainda no mês de setembro, designou outra pessoa para receber seus vencimentos, agora como juiz de Direito interino (em exerçices - escreveu) da Comarca de Rio Verde.

A Freguesia de Jataí em quase tudo dependia de Rio Verde. O transporte de cargas e pessoas era dificultado pela inexistência de ponte sobre o Rio Doce, na estrada que ligava as duas Vilas. Para contornar essa situação, José Manoel Vilella convidou alguns carpinteiros conhecedores do assunto para orçar a construção da ponte (1:701$000). As autoridades da antiga Dores de Rio Verde, de posse desses papéis, pressionaram o Governo do Estado para a execução da obra. Em outubro de 1881, o Palácio Conde dos Arcos convocou, através do Diário Oficial, os interessados na construção dessa ponte.

A Coletoria de Rendas Estadual foi criada em Jataí no dia 22 de novembro de 1881. Para instalar a nova unidade do fisco, aqui esteve um funcionário da Secretaria da Fazenda, o qual trazia um decreto nomeando José Manoel Vilella para exercer o cargo de coletor. Era o nome da confiança do Governo.

Foi Vilella um dos cinco vereadores a compor o primeiro Conselho Municipal, instalado em 02 de março de 1885 e primeiro Juiz de Paz da Freguesia de Jataí. Solicitou ao Clero mandar um padre para Jataí. Veio Antônio Marques Santarém.

José Manoel Vilella era um homem de pouca saúde. Em suas correspondências, eram frequentes as queixas de estar doente de minha saúde - reclamava.

O velho Vilella faleceu cinco meses e meio antes de sua Jataí transformar-se em cidade. Mas esse fato já era do seu conhecimento, após acordo com o deputado José Antônio de Jesus.

Quando da transformação da Freguesia de Jataí para vila, não aceitou a mudança do nome para Vila do Paraíso. Numa carta assinada por ele e José Carvalho Bastos, dirigida à Assembléia Legislativa, o nome foi corrigido para Vila de Jataí.

Não se pode dizer que este é o resumo da história dos feitos de José Manoel Vilella. Há muita coisa a ser dita, principalmente o episódio das construções dos prédios do Paço Municipal e da Casa da Escola. Deve-se lembrar as lutas para a criação da Comarca de Jataí; as investidas sobre os poderes Executivo e Legislativo da Capital para conter as invasões do município pelos ferozes indígenas e moradores além do Rio Aporé e outros.

Logo depois de sua morte, em 15 de dezembro de 1894, D. Leocádia Perpétua da Silveira, sua esposa, nomeou José Carvalho Bastos procurador na partilha dos bens deixados pelo seu finado marido.

No inventário, iniciado dois meses depois de sua morte, pode-se notar a extensão do seu patrimônio. Entre os bens arrolados, constam cinco casas (uma em Rio Verde) construídas ou compradas por ele. A mais cara era a sua residência - foto aabaixo.

A exemplo de Carvalho Bastos, o forte de Jose Manoel Vilella era terras. Entre as muitas fazendas ou partes relacionadas, está a fazenda Ariranha que dizia ter nove léguas de comprimento por três de largura, por isso a de mais alto valor, ou seja, mais de 12,5% do montante dos imóveis. O gado era pouco. Somente 633 reses apareceram no inventário.

Quase seis anos antes de sua morte, Vilella convidou seu amigo Valeriano Raymundo do Prado para redigir seu testamento. Esse documento, assinado no dia oito de janeiro de 1889, foi registrado no Cartório do 1º Ofício e fez parte do processo de inventário. Entre tantas coisas recomendadas, diz que... logo que eu faleça e tenha o meu corpo de dar à sepultura, recomendo que seja ele envolvido em uma simples mortalha de pano preto. ...Embora que as honras do mundo exijam ao contrário, para ser enterrado na porta principal da Matriz, do lado de fora, descalço, sem caixão e sem pompas funerárias...

O patrimônio de José Manoel Vilella, o maior até então, pelo menos até duas décadas depois, foi avaliado em 283 contos de réis. Baseado no preço médio de suas vacas (de baixa qualidade), essa vultosa importância daria para comprar uma vacada de 10.000 cabeças.

 

Esta casa, na Rua Moisés Santana, foi morada de José Manoel Vilella. Pelas linhas arquitetônicas e luxo este prédio estava no grupo dos que pagavam maior imposto. Atualmente permanece de pé menos da metade. Este imóvel foi adquirido pela Prefeitura e cedido à Academia Jataiense de Letras para sua sede.

 

Decreto assinado em 08 de janeiro de 1852 e publicado no
Correio Official de Goyaz
, em 12 de fevereiro do ano seguinte.